Com Trato

Sempre dei o primeiro passo. Com o pé direito, para dar sorte.
Sinal de otimismo.
Mas cansei. Andei o caminho todo até você, que permaneceu imóvel, me esperando.

Quando você vai perceber que parei de andar?
Quando vai parar e pensar que cansei?
Caminhada nenhuma vale a pena se eu faço esforço por dois. Deveria fazer apenas por mim. E o farei.
Esquecer-te-ei.

O que escrevo não basta. Qualquer palavra dita não é suficiente para tirar você da minha cabeça.
Nunca boto para fora todo o sentimento que há em mim. Queria apenas extravasar e jogar fora depois, feito um papel amassado.

Chamadas não atendidas. Mensagens não lidas.
Pare.
Estou tentando te esquecer.

De repente, paro. Penso. Relembro.
Surgem aquelas lembranças bobas que me trazem um sorriso fora de hora.
Interpreto de forma diferente alguns momentos.
Você era o meu amortecedor nas quedas. Suas mãos eram lenços que enxugavam minhas lágrimas.
Seu olhar era uma chama. E eu não sei se vou conseguir resistir por muito tempo se você mirar seus olhos nos meus.

Eu estava ocupada demais contando os meus passos e pensando no meu caminho.
Não dei importância às suas tentativas de me acompanhar.
Não vi seus passos lentos.

Você quer recomeçar?
Mas, por favor, vamos deixar tudo claro e explícito. No papel.
Tenho apenas algumas poucas condições: pegue meu coração, guarde-o com carinho e me dê o seu.
Dê um passo e ganhe um sorriso. Sorria e ganhe um passo.

Termos determinados. Você concorda?
Então assine aqui. Ali também, por favor.
Um aperto de mão. Compromisso.
Negócio fechado.

Com Trato

Desabafo

Há males que vem para o bem. É o que dizem.
Eu te perdi. E não vejo como isso pode se tornar algo bom.

Mas há uma coisa.

As palavras voltaram. Há dois anos estavam perdidas em algum oceano literário que eu desconhecia.
Talvez perder fosse o estopim para que eu procurasse. E achei.
Mergulhei com tudo nessa maré de palavras e fui as catando de forma avulsa. Frases feitas.

Eis aqui o que ganhei.
E só ganhei depois que te perdi.

Nadei mais um pouco e achei sonhos abandonados. Antigos conhecidos.
Olá, como vão? Gostariam de se juntar a mim novamente? A caminhada é longa…

Talvez seja verdade.
Talvez males venham para o bem.

Eu te perdi.
Isso me machucou. Pancadas e mais machucados.
Apenas lembranças.
Cicatrizou. Acordei mais ativa. Viva.

Ainda não sei como isso pode ser bom.

Desabafo

Xis

Eu gosto de sorrir.
Não ligo quando me chamam de idiota ou estranha por estar sempre assim, sorridente. Podem falar o que for.
Só peço que não tirem o sorriso do meu rosto.

Tenho vários motivos para não ser feliz e, mesmo assim, sou.
Acho que sou daquelas que vivem uma incessante busca pela satisfação. Dessas que saem pela rua catando lembranças jogadas. Das que gostam de colher alegria quando plantam algo que, de início, foi regado por lágrimas alheias.

Procuro a felicidade nas coisas mais simples.
Talvez não tão simples. Tampouco pequenas.
São grandes nas intenções e banalizadas no cotidiano.
Abraços calorosos. Piadas sem graça que tentam animar meu dia. Um lenço para assoar o nariz, uma mão para segurar meu rosto e um polegar para secar uma lágrima.

Talvez eu valorize demais o que não deveria.
Talvez eu devesse mais.
Só talvez.

Eu gosto de sorrir.
Mesmo andando sozinha pela cidade, ando com um sorriso disfarçado impregnado na minha face. Ainda assim, um sorriso.
As pessoas que passam por mim me olham de relance, mas não me veem.
Ou me veem sem me olhar.

Gosto de pensar que cada olhar é uma câmera fotográfica. Cada um capta um momento, uma situação, uma postura.
“Como você gostaria de aparecer nas fotos?”
Sorrir para ser fotografado mentalmente não é uma má ideia, é?
Xis.

Xis

Choque Térmico

Arranque meu coração e guarde-o para você. Eu não o quero mais.
Expectativas são meros eufemismos. São ilusões.

Quando estiver na hora, devolva-o para mim.
Mas não agora.
Quero aprender a viver sem um. Quero sentir o que as pessoas frias sentem.
Quero ser que nem você.

Não dá. Sou uma romântica nata. Frieza não se encaixa no quebra-cabeça que é minha personalidade.
O calor sim.
Recepções calorosas.
Abraços calorosos. Beijos ardentes. Sensações que queimam no meu peito feito uma chama acesa.

Não dá.
Não consigo ser como você.

Devolva meu coração. Coloque-o numa caixa e o envie de volta para mim.
Por favor, envie um pedaço do seu também.
Deixe que uma parte de você se junte a uma parte de mim.
Calor. Frio.

São opostos, mas eu não ligo.
Prefiro arriscar um pouco, se você você estiver disposto a se doar também.
Quer tentar?

Quando o correio chegar, vou abrir a caixa com todo o carinho.
Porque você estará lá.
E sei que talvez você não possa demorar
Mas se eu pedir, você fica para o jantar?

Choque Térmico

Percentual

No meio de tanto absurdo, gritaria, sujeira e discórdia… Depois de um longo dia, o estresse me cai bem.
Chego em casa e me jogo na cama, cada linha de expressão do meu rosto faz menção de aparecer antes da hora.
Suspiro alto.
O telefone toca. É você.
Sua voz entra pelos meus ouvidos e toma conta dos meus pensamentos. 75% estresse, 25% você. Porém, não consigo dizer mais do que quatro ou cinco palavras durante a conversa. E você desliga.
Ah! Que pena…

Quase uma hora e meia depois, a campainha toca e lá está você, me esperando para abrir a porta.
E eu abro.
Em uma mão você trouxe pizza e na outra uma sacola com alguns filmes e doces.
Larga tudo ainda no hall de entrada e me abraça. Meu corpo gruda no seu enquanto fico na ponta dos pés, encaixando meu rosto na curva do seu pescoço. Seus braços envolvem minha cintura e os meus, seu pescoço. Levanto a cabeça para te olhar nos olhos antes de escapar do abraço acolhedor. Tempo suficiente para você me olhar rapidamente antes de dar um beijo rápido no meu pescoço.
Assim você me ganha. Fácil.
Um suspiro alto da minha parte e acordamos para a vida real.
Que tal assim: eu te ajudo com a comida enquanto você prepara o filme?

A cada cena, um comentário engraçado da sua parte. Confesso que até tentei assistir o filme, mas você não deixou. A cada comentário, uma risada. A cada carícia, um arrepio.
Insisto, mas não resisto.
50% estresse. 50% você.
Acordo no meio da noite, completamente sozinha. Olho para o teto e penso em tudo que aconteceu hoje. Quantos problemas! E, ainda assim, consegui terminar o dia bem. Com você.
Mas e se foi um sonho?
De repente, vejo uma sombra. É o seu contorno. Você foi buscar um travesseiro extra, pois aparentemente eu estou usando todos.
Me abraça por trás e pergunta, sussurrando: “Tá tudo bem?” Viro o rosto e encontro seu olhar no meu. Sorrio com as linhas de expressão que aparecem nos cantos externos dos seus olhos quando você sorri.
25% estresse. 75% você.

E antes de cair no sono novamente, lá vem você de novo, me encantando. Diz aquelas três palavras que eu quero ouvir. “Eu tô aqui.” E ainda completa: “Com você.”
Assim você me tem 100%.
Fácil assim.

Percentual