Coreografia

Ensine-me a dançar. Conduza-me até o meio do salão.
Não me deixe pisar em você.
Não pise em mim.

Ensine-me a entrar em sintonia com você. Deixe nossos olhares conversarem entre si. Faça nossos lábios se selarem em um beijo. Use sua mão para procurar a minha. Deixe nossas mãos se casarem, nossos dedos se entrelaçarem.
Olhe ao redor. Estão todos nos olhando neste baile de sentimentos. A inveja, a esperança, a luxúria, a felicidade… Juntos, somos o amor. E como dizem que o amor é cego, vamos interpretar do nosso jeito e fingir que não há mais nada conosco. Ao nosso redor, só há um borrão.

Dance comigo. Uma mão na minha e a outra na minha cintura. Um passo para cá, outro para lá. Faça-me girar.
Faça meu mundo girar.
Ensine-me os passos certos. Os passos certos até você.

Uma breve pausa.
Estou aqui sentada, vendo seus olhos brilhantes conversando com os meus. Seus lábios se mexem, você fala. Eu não ouço. Estou dopada com o seu cheiro, viciada na sua voz desafinada.
Ouço a música mais uma vez. Entendo a batida lenta da melodia romântica. Meu coração bate desse jeito. Ele dança e se envolve quando está com você.

Não é possível sentir o que sinto da maneira que o faço. Não é real. Devo estar sonhando.
Ora, se isto é um sonho, preciso aproveitá-lo ao máximo antes de acordar para a minha realidade.
Então, por favor, me ajude mais um pouco. Estamos sonhando em sintonia.

Posso ter a honra de um convite seu para a próxima dança?

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Coreografia

+/-

Os pensamentos otimistas se esvaíram. Toda a positividade se esgotou.
Sentimentos bons estão em processo de extinção. Só me sobraram a paciência e esperança.
Não é o suficiente para continuar.

Fique mais um pouco. Não me deixe sozinha.
Não me deixe sozinha aqui nesse mundo frio e desolador. Eu preciso de atenção. Da sua atenção. Do seu abraço acolhedor e das suas sábias palavras que sempre vinham durante os maus bocados, mas na hora certa.
Eu preciso de você aqui.

Acorde. Está na hora de levantar. Vamos, faça sua parte. Abra seus olhos estáticos. Diga algo, faça sair algum som de dentro desses lábios lacrados. Desfaça esse sorriso sereno, dê uma gargalhada.
Faça-me mais um favor. Batuque algo com os dedos. Com a sua mão quente e acolhedora, não com os dedos gélidos que sinto quando o toco.

Ora, espere. Vamos conversar mais um pouco, temos assuntos pendentes. Preciso que você me ensine uma última coisa.
Estou em maus bocados e preciso lhe ouvir. Não me diga o que já sei, tampouco o que quero ouvir. Diga-me o que preciso escutar. Faça mais um discurso célebre na hora certa.
Agora é a hora certa.

Diga-me que está certo. Diga que sou capaz de suportar isso.
Está sendo difícil para todos, eu sei, mas para mim também.
Eu também sinto.
Sinto sua falta. Venha, levante-se. Converse comigo, avise quando tudo estiver pronto. Eu não estou pronta, você está?

Pensamentos pessimistas são imigrantes na minha alma. Negatividade transborda.
Eu não estou pronta, mas você estava. Um último adeus com uma última mensagem. Não sei se foi suficiente, mas terei que viver com isso. Viver acalentando sonhos que nunca se tornarão realidade e expectativas que nunca servirão para nada.
Sentimentos assim estão em processo de evolução.

E tudo que eu quero é a regressão.
Para o passado.
Para você.

+/-

A Primeira Segunda Pessoa do Singular

Seja forte. Seja delicada.

Seja meiga. Seja firme.
Não decepcione. Atenda às expectativas. Estão todos esperando.

Vá, faça alguma coisa. Não qualquer coisa.
Faça o que eu quero. Seja o que eu mandar. Fale o que eu almejo ouvir.
Não tenha medo: tudo irá funcionar perfeitamente, como o planejado.
Escrevi seu destino bem cedo. Leia o roteiro, decore suas falas.
Faça seu papel.

Agrade à todos, exceto a si mesma.
Não faça nada para me ofender. Não faça nada, exceto quando eu mandar.

Sentir custa caro. Não faça isso, estragará seu personagem.
Guarde seus sentimentos para você. Afinal, alguém perguntou se você está bem?
Quem quer saber sobre sua vida? Sobre suas confidências?
Ninguém.

Seja alguém célebre. Faça sucesso.
Mas não chame toda a atenção para si mesma. Você não tem brilho o suficiente.
Aprenda com a escola, não com a vida.
Ignore o que a vida tem a lhe oferecer, nada de bom virá dela. Tudo que você tem que saber está no roteiro.
Leia-o novamente, interprete-o do meu jeito.

Escreva o que eu quiser ler. Leia o que eu quiser ouvir. Ouça o que eu desejar que escute. Deseje o que eu tenho a oferecer. Ofereça o que eu quero. Queira o que está ao seu alcance. Alcance os meus objetivos.

Seja forte e delicada. Meiga e firme.
Seja tudo o que quiser, mas seja o que eu quero também.
O clímax da sua vida será meu prazer. O ponto alto da sua felicidade será sua morte.

Seja isso. Aquilo também.
Não diga palavrões. “Feliz”; “Amor”; “Fé”;
Quem liga para isso?
Não use “eu” em uma frase. O certo é “você”.

Seja tudo.
Não seja nada.

A Primeira Segunda Pessoa do Singular